2025 em livros.

original publicado no substack: https://tresvezesm.substack.com/p/2025-em-livros?r=b5f06&utm_campaign=post-expanded-share&utm_medium=post%20viewer

Se 2025 estivesse em competição ao nível de livros lidos, não tenho dúvidas que não entraria em nenhum tipo de pódio. Para ser honesta, não entraria sequer no top 10.

Seja como for, esta é uma daquelas competições que não se mede a metro, pela quantidade de livros que li, comprei ou deixei por ler. Certamente que quantidade não é qualidade e este ano precisei de vários meses para processar alguns materiais que me vieram parar às mãos. Não é uma desculpa - é mesmo uma nova parte de mim que precisa de tempo para processar, fazer um reality check e perceber como integrar na vida.

Os livros têm este efeito em muitos que lêm. É difícil passar por eles - ou deixar que eles passem por nós - sem lhes querer tirar um sumo específico, às vezes pouco ou nada relacionado com o seu conteúdo.

Pessoalmente olho para eles como espelhos que refletem uma fase específica do meu ano, momentos de confirmação e de aprendizagem. Muitos estranham-se e depois entranham-se. Um ou outro causam-me sonhos densos, vívidos, consciente e inconscientemente a processar as suas mensagens. Outros ativam memórias antigas, levam-me a viajar até lugares familiares mas que não sei se visitei.

Já não consigo ler com a mesma despreocupação que lia quando era pequena. Histórias atrás de histórias, ficções e biografias, vidas paralelas que preenchiam completamente o meu imaginário mas das quais raramente me lembrava depois. Este é um fenómeno que abrange infinitos leitores: ler um livro inteiro, tanto detalhe para depois só nos lembrarmos de coisas irrelevantes.

Assim de repente, dois livros que adorei e dos quais mal me lembro: Os Maias de Eça de Queiroz e o 2666 de Roberto Bolaño.

Cheguei à conclusão que ler para mim tem-se tornado numa espécie de estudo. Ocasionalmente faço uma pausa com uma ou outra ficção, bem ou mal escolhida, para tentar aligeirar os temas que consomem o meu lado que quer saber mais sobre nós. Como sou uma criatura de águas, a alquimia acontece quando mergulho profundamente em alguma coisa. Os livros e as suas descobertas são uma âncora neste processo.

No meu caso, tenho de ter cuidado para não me tornar demasiado intelectual, por dentro e por fora, sempre à procura de respostas ou de mais perguntas. É uma bola de neve: interesso-me, quero saber mais, tento ir ao fundo da questão só para perceber que não tem fim.

Acabo sempre com mais perguntas do que respostas. Algures neste processo apercebo-me que não vale de nada acumular tanto conhecimento sobre alguma coisa se não fizer nada com ele. Se não fizer nada com ele… torna-se vazio, uma busca infinita por respostas que pouco ou nada preenchem. As lições ultrapassam os livros e são muitas vezes facilitadas por eles.

Às vezes os livros aparecem com uma espécie de missão. O seu conteúdo espelha-se no dia a dia — ou será o dia a dia que se espelha na realidade do livro? A lombada aberta em dois pode perfeitamente ser um portal para uma realidade paralela, ou um espelho que se entranha na realidade e a reflete com toques mágicos. O sincromisticismo no seu melhor.

Este ano não foi excepção. As realidades misturaram-se em várias ocasiões, e acabei por viver histórias paralelas, uma espécie de contínuo entre realidade e ficção. E se não li tanto como nos outros anos, talvez tenha sido porque a realidade exigiu mais do que o costume. Valorizam-se outras aprendizagens, mais lentas mas compensadoras. Assim que junho chegou ao fim, tive mais vontade de produzir do que de consumir. Dar uso a muitas das coisas que tinha aprendido e ainda não tinha posto em prática.

Graças a circunstâncias imprevisíveis (e às quais muito agradeço), consegui apontar o foco para escrever artigos e publicar os primeiros capítulos do Manual de Navegação. Decidi partilhar primeiro o que tinha escrito sobre a Intuição e o Silêncio. Os próximos também irão desvendar algumas das águas onde andei a mergulhar nos últimos anos, e estão sempre sujeitos a atualizações.

Foi também graças a esse foco celestial que decidi escrever este artigo e partilhar algumas reflexões sobre os livros que li este ano. Para que o fenómeno sincromístico se espalhe pela internet e chegue a quem tenha de chegar, daquelas formas subtis, intrigantes e extremamente pessoais que só cada um sabe.

Não me irei alongar muito sobre cada um mas darei o meu melhor para destacar alguns pontos principais de todos os livros, até onde me lembrar. A perda de memória literária é real.

Jan

🔸The Secret Doctrine - Helena Blavatsky (em progresso)

🔸The Kingdom of This World - Alejo Carpentier

Fev

🔸Things we lost in the fire - Mariana Enriquez

Mar - Abr

🔸The Eight Tower : on extraterrestrials and the superspectrum - John Keel

🔸The Compound Effect - Darren Hardy

Mai - Jun

🔸 Autobiography of a Yogi - Paramahansa Yogananda

Jul - Ago - Set

🔸 Gnosis: Alchemy, Grail, Ark and the Demiurge - Tom Montalk

🔸 A Bruxa de Portobello - Paulo Coelho

🔸 A Noite Escura: Experiência psicológica e realidade espiritual - Marc Foley

Out

🔸 Personal recollections of Joan of Arc - Mark Twain (em progresso)

Nov

🔸 The Call of Cthulhu - H.P. Lovecraft

🔸 Occult Science - Rudolph Steiner (em progresso)

Dez

🔸 Discerning alien information - Tom Montalk

A ler: The Law of One, Book One - Don Elkins

Janeiro

The Secret Doctrine - Helena Blavatsky (em progresso)

Longo, denso, altamente simbólico e filosófico. É uma das obras principais da Teosofia e é oferece praticamente um resumo do conhecimento espiritual, metafísico, científico e simbólico da humanidade. Pretende revelar os ensinamentos antigos que estão por trás de todas as religiões, mitologias e sistemas filosóficos. É um mix de cosmologia, antropologia e metafísica.

Está dividido em dois capítulos gigantescos - Cosmogénese (a origem do Universo) e Antropogénese (a origem da evolução do Homem). Ainda estou no primeiro capítulo monumental sobre a origem do Universo e como Blavastky teve acesso a toda esta informação canalizada. Ambos os capítulos são um comentário super extenso a um texto simbólico chamado As Estâncias de Dzyan, supostamente com origens na antiga civilização de Atlântida.

Não sei bem porque é que comecei o ano a ler A Doutrina Secreta. Acho que já tinha alguma curiosidade e estava com um preço irresistível no Kobo. As suas mais de 1000 páginas não me desmotivaram ao início mas percebi rapidamente que lê-lo era um estudo simbólico e contemplativo. Certamente que serviu de tom para o início de 2025.

No mesmo tipo de literatura que expõe diferentes perspectivas e realidades cósmicas, recomendo os livros de Rudolph Steiner. A leitura é igualmente densa, indireta e simbólica, mas para o meu gosto consegue ser mais prático e direto. Em livros como Occult Science, Steiner não está propriamente a interpretar profecias de outros — está a explicar com base na sua experiência, intuição e análise.

The Kingdom of This World - Alejo Carpentier

Cru, curto e místico. Senti-o como um pôr do sol quente e misterioso, daqueles que carregam uma luz sobrenatural. Foi-se entranhando aos poucos.

É uma daquelas histórias que se revela aos poucos, sem tentar agradar o leitor. Pelo contrário; a sua rudeza, tocada pelo realismo mágico, deixa-nos bem próximos dos ossos e da alma dos personagens.

O pano de fundo é a história turbulenta do Haiti no final do século XVIII até ao início do século XIX. The Kingdom of This World levou-me por um labirinto de magia negra, vodu, Deuses antigos e reis, escravos, cheiro e sabor de sangue, sexo, carne viva, opressão, ilusão de ser livre e todos os sacrifícios que se fazem em nome dela. Há um confronto constante entre o que é real e o que é puro mito, quem é humano e quem é animal. Qual é o instinto que sobrevive.

Levou-me a pensar do que separa a magia da realidade. Até que ponto as nossas crenças influenciam e moldam a história. A luta pela liberdade, física ou espiritual, é uma constante desde o início dos tempos. Pode perfeitamente ser mais uma ilusão, uma história vendida para nos manter alerta. O sistema não quer que saibamos que somos livres dentro de uma prisão; só muda a forma que ela pode tomar.

Esta história teve a capacidade de me colocar num sítio onde (conscientemente) nunca estive, em lutas que não sei se travei mas que se revelaram universais, seja qual for o tom da pele ou as crenças religiosas. Como enorme fã do realismo mágico e de histórias cruas, sem tentativas de embelezar as peças, ponho este ao nível de algumas histórias da Mariana Enriquez.

Para outros livros deste género, recomendo Our Share of Night de Mariana Enriquez, Unquenchable Fire de Rachel Pollack, White is for Witching de Helen Oyeyemi, The Ocean at the End of the Lane de Neil Gaiman.

Fevereiro

Things we lost in the fire - Mariana Enriquez

Mariana, Mariana. Como eu gosto das histórias desta senhora.

Acho que um dos meus pontos fracos enquanto leitora é nunca ter sido grande fã de contos, o que me faz passar ao lado de histórias curtas mas com muito potencial. Miss Enriquez fez-me mudar de ideias… só não sei se será a excepção à regra, porque gosto muito de tudo o que ela escreve.

Histórias profundas, tristes, inquietantes, sinistras e espectrais. Podia utilizar aqui todo o meu vocabulário para descrever o nível de estranheza que elas me causam. Cresci com histórias de terror, sou da geração Arrepios e da Buffy, a Caçadora de Vampiros. Não colocaria estes contos da Mariana exatamente como histórias de terror mas navegam em mares muito próximos, onde as coisas nunca são o que parecem. Onde o que parece ficção esconde um lado negro da humanidade.

A Mariana deu-me vontade de visitar Buenos Aires e de estar entre as suas memórias, sentir a sua nostalgia. De lembrar as coisas que perdi no fogo.

Para ler estas histórias - ou qualquer livro da Mariana - tenho de estar num estado de espírito muito específico. Porque elas têm uma forma de se agarrarem aos ossos como cola. Preciso de ter vontade de me envolver nesta capa sinistra e desconcertante, com imagens bem vívidas que ficam cravadas na memória.

Sei que a vibe da Mariana não é para todos. É para quem gosta de ir ao fundo do poço e confrontar-se com muita coisa que parece pura imaginação… mas basta fazer alguma pesquisa para perceber que não é bem assim. O mundo é cheio de coisas lindas mas há um lado bem negro a que nem todos temos acesso. Acredito que as histórias da Mariana Enriquez nos dão um vislumbre desse lado profundamente ferido que partilhamos enquanto humanidade.

Recomendo qualquer livro da Mariana Enriquez. Depois de García Marquez e Jorge Luis Borges, foi a escritora que mais me fez apaixonar pela América Latina. O meu favorito dela é, sem dúvida, Our Share of Night (em português, A Nossa Parte da Noite) e não podia deixar de o recomendar aqui.

Também não podia deixar de incluir The Lottery and Other Stories de Shirley Jackson (outro dos meus grandes amores) nestas recomendações. Qualquer livro de Shirley Jackson vale muito.

Março - Abril

The Eight Tower: on extraterrestrials and the superspectrum - John Keel

Escrevi toda uma dissertação sobre este livro do John Keel que - Deus queira - um dia acabarei de editar. Keel ficou mais conhecido pelo seu livro The Mothmath Profecies (1975) que acabou por ser adaptado para o cinema num filme com o mesmo nome, com Richard Gere como protagonista.

Para quem não sabe, The Mothman Profecies surgiu como uma investigação complexa às aparições de uma criatura que tinha uma aparência entre traça e pássaro, algures entre 1966-1967, em Point Pleasant, Virginia. Existe até uma estátua feita em homenagem às aparições da criatura, vejam aqui.

Comprei este livro muito graças às inúmeras referências a este escritor no The Higherside Chats, um dos meus podcasts favoritos. Pensando no início do ano e no estado de espírito com que li e contextualizei o The Eight Tower, consigo perceber que foi a primeira centelha de uma fogueira que iria arder muito mais intensa nos meses que se seguiam.

Tenho de confessar que este livro me deixou confusa do início ao fim. Pôs em perspetiva tudo o que eu achava que sabia sobre extraterrestres e introduziu-me ao conceito do super-espectro - um campo de frequências que existe para além do que os nossos sentidos conseguem captar. Uma ideia prática sobre algo que não conseguimos sentir mas sabemos que existe. Para Keel, o que chamamos de realidade é apenas a ponta do icebergue. Este super-espectro expande-se por várias camadas do nosso mundo - físico, energético, consciente - e é dentro dele que consciência e realidade se misturam.

Onde entram os extraterrestres nesta linha de pensamento? Keel teoria que todos os fenómenos paranormais (fora do normal) são interferências ou intrusões do super-espectro na nossa realidade. Ou seja, eles não vêm de fora do planeta… Vivem em paralelo, só que noutra dimensão de tempo/espaço e num espectro que não nos é acessível em termos gerais. Por exemplo, estados alterados de consciência (sono, trauma, medo, meditação, canalização) são favoráveis para quebrar os termos genéricos do espectro.

Por outro lado, algumas pessoas com sensibilidade específica conseguem aceder a este super-espectro e “quebrar” a barreira que nos separa, de uma forma natural e inata. Isto explica também porque é que o fenómeno escolhe certas pessoas e há tantas contradições nas histórias e aparições.

Mais do que um livro sobre extraterrestres, é uma tentativa de explicar vários tipos de fenómenos que se vão manifestando no nosso espectro visível de luz: aparições, poltergeists, entidades, sincronismos, profecias. A nós manifestam-se como “falhas no sistema”, espectros de luz e movimento, mas fazem parte de um sistema invisível com o qual co-habitamos e do qual sabemos (mesmo) muito pouco. Isto torna os fenómenos altamente subjetivos e simbólicos, pois dependem imensamente da experiência e perspetiva do observador.

E esta Oitava Torre? Confesso que demorei algum tempo a perceber a referência. Na ótica de Keel, representa o ponto onde a nossa percepção toca o super-espectro, sem nunca o conseguir compreender totalmente. Uma espécie de The Big Paranormal Brother is watching you. É o ponto de contacto com o sistema de controlo invisível, ao qual não somos imunes, mesmo que não acreditemos nele ou não saibamos que ele existe.

É aquele elemento que observa e interfere, sem nunca se revelar completamente.

Não vive dentro da realidade, mas opera sobre ela.

Manifesta-se através de símbolos, interferências, sincronismos, paradoxos.

O número 8 também não é propriamente escolhido ao calhas; se o 7 marca o limite do mundo que vemos, o 8 é o que está para lá desse mundo material.

Qualquer estudioso que entre profundamente neste tema acaba por chegar à conclusão de que não dá para compreender completamente o fenómeno. É demasiado amoral, aleatório, manipulador, simbólico e moldável à cultura e crenças de cada época. Anjos, fadas, extraterrestres… É realmente ilusório achar que sabemos exatamente o que é.

Não tenho respostas, mas sinto que esta perspetiva complexa e simbólica ajudou-me a encaixar algumas peças no puzzle. Precisei de ler outras coisas depois para completar a narrativa de Keel, que me pareceu um pouco distópica, dura e desencantada ao início. No final, The Eight Tower é claramente um dos livros que ajuda a acrescentar mais perguntas à lista do fenómeno paranormal, expondo as suas camadas mais manipuladoras e ocultas.

Não recomendo enquanto uma primeira leitura para entrar no tema de fenómenos paranormais: sugiro já terem mais peças do vosso puzzle para conseguirem fazer algum sentido deste livro. A minha sugestão é começarem por um livro que vos dê uma visão um bocadinho mais ampla do mundo e que vá orientando onde é que as peças se encaixam. Alguns contos de autores como H.P. Lovecraft e Philip K. Dick podem ser uma boa introdução a este tipo de narrativas, de um ponto de vista mais ficcional e romanceado.

The Compound Effect - Darren Hardy

Pequeno, prático, direto. As dicas de um mega CEO para pormos em prática o compound effect: pequenas escolhas consistentes, aplicadas todos os dias, que têm resultados incríveis ao longo do tempo. Disciplina, consistência, tempo.

Um ótimo guia para criativos, pequenos empresários, ou para quem precisa de uma motivação extra no seu negócio / processo e está com vontade de desistir porque ainda não viu resultados práticos.

Hardy tem uma maneira muito própria e direta de fazer entender que somos responsáveis pelos nossos resultados e mostra-nos que, apesar de não podermos controlar tudo, controlamos as decisões, os hábitos, e as atitudes que tomamos em relação às coisas que pomos no mundo. Acaba por ser bastante simples: os bons hábitos protegem-nos e os maus hábitos sabotam-nos lentamente, sem darmos conta.

A chave não é tanto a motivação que sentimos; acho que é comum pensarmos que quem cria um negócio é extremamente apaixonado por ele e acorda todos os dias com vontade de inovar e desenvolver. O sweet spot está no sistema que criamos para conseguir levar as coisas avante, mesmo naqueles dias em que não nos apetece fazer nada. Sermos demasiado guiados pelas nossas emoções, ignorando completamente os factos e as coisas práticas que podemos fazer, tem um lado negativo que sabota o potencial de sucesso, a médio e longo prazo.

Sinto que o conteúdo que consumimos hoje em dia leva-nos ao engano neste tema: o sucesso - seja quais forem os critérios que usamos para o definir - raramente acontece de um dia para o outro, como nos fazem querer parecer nas redes sociais e noutros conteúdos de digestão rápida. É um processo que se constrói todos os dias, no behind the scenes, com um monte de pequenas ações (muitas vezes, nada interessantes) que, quando submetidas ao critério do compound effect, criam um grande impacto a longo prazo.

A verdade é que acabei por ler e interpretar este livro de uma forma um bocadinho mais ampla e transversal, porque esta atitude é super válida e um bom reality check nas escolhas que temos de fazer todos os dias. Não é o tipo de livro que eu compraria normalmente mas foi-me recomendado e veio em ótimo timing para revalidar a necessidade de trabalhar nas coisas ao longo do tempo e reajustar o valor que dou às coisas pequenas e invisíveis que tenho de fazer todos os dias.

Também foi especialmente útil numa altura em que estava a precisar de ganhar momentum, ritmo e consistência nos meus projetos pessoais. Não levei nada à risca - nem sequer vi os exercícios sugeridos no final do livro - mas ativou em mim uma postura mais séria, concentrada e paciente. No final de contas, Roma não foi construída num dia.

Não costumo ler livros deste género mas houve um em particular, de um escritor brasileiro, que me veio à cabeça: O poder da auto responsabilidade, de Paulo Vieira. Ainda não o li mas está na minha wishlist da Kobo e foi-me recomendado por algumas pessoas que estão dentro destes temas de orientação, auto-conhecimento e motivação.

Maio - Junho

Autobiography of a Yogi - Paramahansa Yogananda

Tive oportunidade de escrever um pouco mais sobre alguns princípios de Yogananda no meu artigo do Manual de Navegação sobre o Silêncio - mais especificamente com algumas das suas considerações sobre esta prática e modo de estar. Não as escolhi porque me faltavam outras referências: escolhi-as especificamente porque este livro teve tanto impacto em mim que não podia deixar de as partilhar com quem quisesse saber mais sobre ele.

A minha primeira reação a olhar para a capa foi um bocadinho de medo. Medo que este Mestre me lesse a alma e percebesse tudo o que tenho cá dentro, como vim a perceber que é bem comum com estes Gurus. Como uma Mona Lisa misteriosa e profunda, os olhos de Yogananda ficam cravados na memória, como quem já viu o melhor e o pior dos Homens e tem uma incrível compaixão pela nossa existência. Como quem guarda os segredos do mundo e é demasiado bondoso para os partilhar.

Acho que há pouca coisa que eu possa dizer sobre este livro que lhe faça justiça.

É daqueles que têm de ler para perceber como se encaixa na vossa vida, o que podemos aprender com os antigos, num tempo em que os milagres eram uma coisa garantida e vivida por todos os que acreditassem neles.

Guardo este livro com imenso carinho, assim como o que aprendi através dos olhos de Yogananda e dos que vieram antes dele. Guardo com carinho também o seu Guru, Sri Yukteswar Giri, e as fotografias que existem deles que ajudam a complementar a aura ainda mais mágica.

Apesar da Autobiografia ser claramente o livro que lhe deu reconhecimento nos Estados Unidos e na Europa, Yogananda escreveu outros livros - alguns deles que também gostava de adquirir para ler, quem sabe, quando tiver todo o tempo do mundo para ler.

Alguns deles são God Talks With Arjuna: The Bhagavad Gita(comentários) e The Second Coming of Christ: The Resurrection of the Christ within you (interpretações dos evangelhos).

De Sri Yukteswar tenho no Kobo o seu livro The Holy Science, escrito de uma empreitada só e a pedido do seu Guru. É curto e estou a deixá-lo para 2026.

Julho - Agosto - Setembro

Gnosis: Alchemy, Grail, Ark and the Demiurge - Tom Montalk

Há muitas coisas que podia dizer sobre este livro. Ouvi a entrevista do Tom Montalk no The Higherside Chats e decidi comprar todos os livros que ele já tinha editado assim de uma vez. Não é que ele seja assim uma grande personalidade ou que saiba muito mais do que os outros, mas as suas perspectivas tão práticas e factuais eram o que me faltava para complementar as minhas próprias experiências, tão mais sensitivas e emocionais.

Este foi um daqueles livros que tive de ler com calma e com discernimento, numa espécie de tetris mental em reorganização para encaixar novas camadas de informação. Explicações profundas e ligações ocultas entre alquimia, o Grail, a Arca da Aliança e o Demiurgo, essa entidade que criou o mundo material como o conhecemos, a prisão e a salvação. Também inclui várias referências a Shekhinah e misticismo judeu, às pirâmides e o seu papel ao longo dos anos, história oculta e provas concretas de tempos em que o véu era mais fino e conseguíamos conviver com elementares e criaturas de outras formas.

Precisava de um artigo inteiro para explicar o Gnosis e tudo o que aprendi com ele. Como tive uma experiência tão pessoal com o livro, acabei por escrever um e-mail ao autor. Não espero que me responda mas fico contente por o ter feito.

O Gnosis deu-me pesadelos, sonhos vívidos, sonhos videntes e momentos sincromísticos em várias ocasiões. Foi como se o meu subconsciente também se estivesse a reorganizar durante a noite, a lidar com camadas que são claramente difíceis de digerir. Às vezes as pesquisas têm este efeito alquímico, um pouco amargo, onde temos de pôr em causa realidades que não nos favorecem muito. Mas voltava a fazer tudo outra vez.

Numa trip bastante diferente mas igualmente polémica e 100% herege, posso sugerir os livros de Amon Hillman e o canal do YouTube do Ken Wheeler, Theoria Apophasis. O podcast Aeon Byte (Spotify, apple podcast) de Miguel Connor também é um dos melhores e infinitos poços de referências e histórias sobre gnosticismo, magia, ocultismo e filosofias antigas.

A Bruxa de Portobello - Paulo Coelho

É o segundo livro que leio deste escritor brasileiro. Este aqui é um exemplar que vivia nas estantes de casa dos meus pais e cuja capa sempre me intrigou bastante. Não conseguia arranjar maneira que fizesse sentido com o título, A Bruxa de Portobello.

Numa bela tarde de julho fui pesquisar a minha estante à procura de um livro tranquilo para equilibrar o Gnosis do Tom Montalk; claramente não é o tipo de livro que posso ler para adormecer e esperar sair ilesa nos sonhos.

A Bruxa já tinha ganho a minha curiosidade há algum tempo, desde que me cruzei com aquela capa misteriosa. Foi a minha mãe que o comprou e nem sei que realmente o chegou a ler.

Gostei muito da história, uma jovem Athena à procura do seu lugar no mundo. Tem bastante simbolismo e referências a várias religiões, filosofias, práticas pagãs e rituais. Lê-se muito bem e ofereceu-me alguns momentos bonitos de contemplação, guiada pelas viagens e aventuras de outra mulher. Também posso adiantar que tem um plot twist bastante curioso.

Não são exatamente ficções mas são as minhas recomendações de histórias de mulheres selvagens, ligadas à raiz, curiosas e apaixonadas: Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés; a tetralogia napolitana de Elena Ferrante, a começar com A Amiga Genial; Initiated - Memoir of a Witch, de Amanda Yates Garcia; Year of the Monkey, de Patti Smith; Rebecca, de Daphne du Maurier; Jane Eyre, de Charlotte Brontë e Wuthering Heights, de Emily Brontë.

A Noite Escura: Experiência psicológica e realidade espiritual - Marc Foley

Este livro veio-me parar às mãos por caminhos sincromísticos - ou seja, estava a meio das minhas pesquisas para o tema do silêncio e A Noite Escura apareceu-me como uma referência muito alinhada com o que estava a escrever.

A análise e interpretação ao livro de São João da Cruz - um frade carmelita místico espanhol do século XVI, da mesma altura de Santa Teresa de Ávila - é feita por um padre americano, Marc Foley. A sua análise é bastante contemplativa e imparcial, algo que eu aprecio. A poesia do frade e místico espanhol pode precisar de algum contexto e senti que seria uma boa introdução à sua filosofia e como entranhou a sua relação com Deus, mesmo quando se podia ter sentido abandonado durante os 9 meses que esteve aprisionado por outros frades.

Foi durante esse período que escreveu muito e nos deixou uma obra super simbólica e contemplativa, num tom com alguma ironia mas pouca tolerância para boicote espiritual.

Uma leitura profunda, que convida a meditar sobre questões muito pessoais sobre a nossa relação com Deus que Marc Foley deixa no final de cada capítulo analisado. Uma espécie de reza e meditação ativa, se quiserem ver assim.

Outros livros do mesmo género que tenho na estante, talvez possa sugerir as obras de Teresa de Ávila, As Moradas; História de uma Alma, de Santa Teresa do Menino Jesus e as Conversas com Deus, de Neale Donald Walsch.

Outubro

Personal recollections of Joan of Arc - Mark Twain (em progresso)

Quando o comprei para o Kobo não tinha ideia da empreitada em que me iria meter: 1600 páginas, uma história altamente aprofundada e detalhada por Marc Twain, sobre uma das minhas heroínas favoritas de todos os tempos, Joana D’Arc. A narrativa é contada através dos olhos de um dos seus amigos de infância, Louis de Conte, que acompanha toda a vida de Joan até aos interrogatórios e à morte na fogueira.

Mark Twain considerou-o o melhor dos seus livros e consigo imaginar porquê. Passou anos a investigar os arquivos franceses e utilizou partes do verdadeiro interrogatório entre Joana e os inquisidores. O nível de detalhe a que este escritor foi, os documentos que pesquisou, as épocas a que teve acesso; é o trabalho de uma vida. A história de Joana D’Arc contada pelo estilo deste autor tornam este livro uma delícia com sabor agridoce porque infelizmente todos sabemos como acaba a história desta heroína.

Os primeiros capítulos dão um preview do sabor mágico da história da vida de Joana. Falam da vila onde nasceu e foi criada, do ambiente que a rodeava, dos dragões que se escondiam na floresta e das fadas que visitam a árvore de Domrémy. Também falam da dureza de viver nos campos, da guerra infinita entre Franceses e Ingleses, dos lobos que andavam à solta em Paris.

Pela sua complexidade e por ser um livro que vejo quase como uma biografia, com detalhes que vou reutilizar como referência noutras coisas em que ando a trabalhar, guardo-o com carinho para ir lendo aos poucos, sem pressa, sempre que me apetecer mergulhar nesta história epicamente triste.

Se tivesse de recomendar algo parecido com esta história - ou melhor, com a vibe que esta história me dá - seria o The O Manuscript, de Lars Muhl.

Novembro

The Call of Cthulhu - H.P. Lovecraft

Um conto bem lovecraftiano, curto, bastante visual, rico em simbologia e um imaginário moderno, profundo, cheio de referências a entidades antigas e extraterrestres que tomaram a forma de Deuses para os nossos antepassados.

A narrativa pode ser de 1928 mas o tema é bem atual. Uma coisa que eu gosto na forma como Lovecraft escreve sobre estes temas é que não é nem romanceada nem cede nem a narrativas de que os extraterrestres estão a caminho para salvar a humanidade (ou para nos salvar de nós próprios). Gosto que as histórias sejam assustadoras ao ponto de ajudar a criar uma barreira, porque acho que vamos precisar desse discernimento e de perceber que tipo de Deuses queremos mesmo adorar.

Dentro do mesmo género, gostei bastante do At the Mountains of Madness (do mesmo autor).

Dezembro

Discerning alien information - Tom Montalk

O segundo livro que li do Montalk este ano e que levei comigo para as férias no final do ano. Era leve e foi um bom fechar de ciclo com os livros que abriram o ano. Sinto que depois do Gnosis fiquei com mais ferramentas para encaixar estes temas num espectro real e prático.

Na verdade, é um daqueles temas que gostava de incluir no Manual de Intuição mas ainda sinto que preciso de organizar melhor as ideias; não é que nunca vá partilhar nada do que aprendi, mas o que sair tem de ser bem estruturado e tem de me fazer muito sentido.

Montalk tem uma forma bastante prática, direta e factual de apresentar as suas hipóteses sobre este tema de extraterrestres, a forma como se podem apresentar, as suas estratégias, narrativas, intenções. Ele não apresenta mais do que hipóteses porque acho mesmo difícil alguém ter conclusões ou certezas sobre alguma coisa relacionada com este tema.

O meu critério quando compro este tipo de livros é sempre mais intuitivo do que racional: faço um check constante sobre como aquela informação me faz sentir, fico atenta a sinais de alerta e vou validando ao longo do caminho. Às vezes a validação vem de fora, com outras pessoas a falarem sobre o tema da mesma perspetiva, e outras vezes vem da minha própria experiência, numa daquelas confidências místicas onde a vida real se mistura com as histórias dos livros.

Tal como no final de Gnosis, o autor também apresenta uma lista de referências e bibliografia recomendada para quem quiser aprofundar algum tema do livro.

O The Eight Tower teria sido um bom livro para ler a seguir a este mas desta vez comecei pelo fim.

A ler:

The Law of One, Book One - Don Elkins

Mencionado no último livro que li do Montalk, decidi seguir as migalhas que deixaram para mim e encontrei este exemplar na Vinted por um daqueles preços que parvo é não comprar.

Até agora estou a gostar bastante. Talvez por também abordar temáticas cósmicas e espirituais canalizadas por médiuns, está-me a fazer lembrar um pouco o The Magdalene Manuscript de Tom Kenyon, do qual também gostei muito. Confesso que tinha alguma resistência com esse livro mas também sabia que tinha de o ignorar para conseguir tirar o sumo da sua essência.

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