Santo Choro.

artigo original no substack: https://substack.com/home/post/p-202162088

Bem-vindas, santas lágrimas.

O meu choro não escolhe horas, contexto, confiança. Não precisa de grandes motivos. Não é tímido nem contido. É como se as minhas lágrimas quisessem ser vistas. Como se brilhassem especialmente quando sabem que têm audiência, independentes da minha vontade ou do meu pudor.

O meu choro não pede permissão. As lágrimas saem, uma a uma, primeiro organizadas - quase com vergonha, como se já não tivessem feito isto antes - e depois abrem-se as barragens e é cada gota por si.

Competem pela minha atenção: qual é a mais rápida, a mais macia, a que chega primeiro à boca e me dá a provar o sal.

A torrente é leve e pesada ao mesmo tempo. Afinal carrega um peso salgado, como se fôssemos feitos de mar por dentro.

Mesmo se eu pudesse beber as minhas lágrimas, não sei se queria. Se é uma água que sai, carregada de emoção, não estaria eu a embriagar-me no que precisa de sair?

Em caso de vida ou de morte, alguém chorou tanto que conseguiu matar a sede?

Matar a sede com lágrimas seria a derradeira poção da vida, um elemento essencial da Pedra Filosofal (os alquimistas que me contradigam!)

Penso na Mater Dolorosa que existe em nós. Nas de choro fácil. Maria, a “Mãe das Dores”, com a sua torrente de lágrimas de vidro e punhais espetados no coração. As imagens falam por si. Podem achar demasiado forte, a doçura de Maria contrastada com facas e espadas e setas no coração. E não podemos esquecer que o coração trespassado também é um assunto sensível. Eu cá acho-a gloriosa na sua dor. Não há lágrimas como as dela.

Penso nas santas chorosas. O epítome da doçura, da partilha da dor de Cristo no calvário e das dores de todos os que já vieram ~ e dos que ainda estão para vir.

Santa Catarina de Siena, por Juan Bautista Maíno.

Catarina de Siena.

Marie de Oignies.

María de Santo Domingo.

Jeanne des Anges.

Há mais. Somos muitas.

Pergunto-vos: como é que aguentavam? Os vossos olhos não inchavam? O vosso nariz não entupia?*

*graças a Deus por nos ter dado uma via alternativa para respirar. Amén boca.

Os vossos lábios não secavam? Hidratavam a seguir?

Se Deus vos deu a permissão do choro e o dom das lágrimas, é provável que tudo isto se torne secundário.

Mas… e a fisicalidade das coisas? Uma santa não é uma mulher prática, não sente como as outras? Ou fazia parte do show, como diz a canção do Cazuza?

Lembro-me que até as estátuas choram pelo mundo.

Madonnina delle Lacrime.

Nossa Senhora de Akita.

Nossa Senhora de Guadalupe.

Nossa Senhora de Fátima com lágrimas de cera.

Estátuas mais profundas e metafísicas que choram sangue.

Lado a lado com

Stigmata, visões, falar línguas, perfume de rosas e lírios,

curas milagrosas, jejum prolongado,

materialização de bolos e vinho, corpos que não se decompõem,

levitação e êxtase, estar em dois lugares ao mesmo tempo,

luz e fogo interior,

choro e pranto.

De todos os sinais de santidade, as lágrimas são a única coisa que temos em comum. Toda a gente as tem — e pouca gente é santa. Sentidas, de crocodilo, de dor, pura performance (a beleza do show), de pena, de perdão, de felicidade. Todas e nenhumas e mais algumas.

As lágrimas são um presente para nós, para cada um usar a seu bel prazer. Um presente que aceito com honra e devoção,

mesmo que me custe dois dias de olhos inchados e nariz entupido.

Para a próxima (e haverá sempre uma próxima)

Honrarei tanto as minhas lágrimas

Que vou transformar-me numa estátua de fonte

A jorrar água por todos os orifícios do rosto

E a a(dor)ar.

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